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JURÍDICO

Insolvência civil: a falência do devedor pessoa física que deve mais do que tem

13 AGO 2026 · 12 min de leitura · Por Tauany Vasconcelos (OAB/SP 459.621)
QUANDO A PESSOA FÍSICA DEVE MAIS DO QUE TEMDÍVIDASBENSART. 748: AS DÍVIDAS EXCEDEM OS BENSPEDIDO DE INSOLVÊNCIAART. 753 · TÍTULO EXECUTIVOCONCURSO UNIVERSALART. 751, III · ART. 762CREDOR ACREDOR BCREDOR CRATEIO EM ISONOMIA ENTRE CREDORES!ART. 778: AS DÍVIDAS SE EXTINGUEM EM 5 ANOSINSOLVÊNCIA CIVIL · CPC/73 · REsp 2.258.692

A execução contra o sócio avalista finalmente saiu do papel, mas o SISBAJUD volta zerado, o RENAJUD não encontra veículo e a busca patrimonial revela protestos e execuções em toda parte: as dívidas do devedor pessoa física superam, com folga, qualquer patrimônio visível. Nesse ponto, muitos gestores concluem que pessoa física não quebra e arquivam mentalmente o crédito. A conclusão está errada. Existe uma falência do devedor não empresário, chama-se insolvência civil, está regulada até hoje pelo Livro II, Título IV, do CPC de 1973 (mantido vivo pelo art. 1.052 do CPC/2015) e produz efeitos duríssimos: vencimento antecipado de todas as dívidas, arrecadação dos bens atuais e dos que o devedor vier a adquirir, concurso universal de credores e perda da administração do próprio patrimônio (arts. 748, 751 e 752). E o caminho acabou de ficar mais curto: em 4 de agosto de 2026, a 3ª Turma do STJ decidiu no REsp 2.258.692, relatado pela ministra Nancy Andrighi e por unanimidade, que o credor com execução individual frustrada pode pedir a insolvência do devedor sem desistir da execução, que fica apenas suspensa, e que até o credor com privilégio pode requerer o concurso, ao preço da renúncia tácita à preferência. Com 83,9 milhões de pessoas físicas negativadas em julho de 2026, recorde da série histórica da Serasa Experian, o tema deixou de ser exótico: por trás de todo CNPJ inadimplente há sócios, avalistas e fiadores. Este guia mostra o que é a insolvência civil, quem pode pedir, os efeitos que ela produz, o custo estratégico dos 5 anos do art. 778 e os cenários em que a execução individual continua sendo o melhor caminho.

A execução contra o sócio avalista finalmente andou: título líquido, citação feita, penhora requerida. E então a tela devolve o pior cenário: SISBAJUD zerado, RENAJUD sem veículos, e a busca patrimonial revela um devedor cercado de protestos, execuções de outros credores e nenhum bem livre. As dívidas superam, com folga, qualquer patrimônio visível. Nesse ponto, muitos gestores de crédito concluem: pessoa física não quebra, perdemos. A conclusão está errada. Existe, sim, uma falência do devedor que não é empresário. Chama-se insolvência civil, está em vigor desde 1973, produz efeitos mais duros que os da execução comum e acaba de ficar mais acessível por decisão do STJ.

O tema nunca foi tão atual. Em julho de 2026, o Brasil atingiu 83,9 milhões de pessoas físicas negativadas, o maior número de toda a série histórica do Mapa da Inadimplência da Serasa Experian, após 19 meses consecutivos de alta: praticamente metade da população adulta do país. Para o credor B2B, o dado importa por uma razão simples: por trás de todo CNPJ inadimplente há sócios, avalistas e fiadores pessoas físicas, e a saúde financeira deles é a última garantia do crédito. E em 4 de agosto de 2026 a 3ª Turma do STJ, no REsp 2.258.692, relatado pela ministra Nancy Andrighi e decidido por unanimidade, facilitou o caminho: o credor com execução individual frustrada pode pedir a declaração de insolvência do devedor sem desistir da execução. Este guia mostra o que é o instituto, quem pode pedir, os efeitos, e quando ele vale ou não a pena.

Nota

Este conteúdo é informativo. As referências centrais são o Livro II, Título IV, do CPC de 1973 (Lei 5.869/1973, arts. 748 e seguintes), mantido em vigor pelo art. 1.052 do CPC/2015, e a decisão da 3ª Turma do STJ no REsp 2.258.692, relatora ministra Nancy Andrighi, julgado em 04/08/2026. A conveniência de pedir a insolvência do devedor depende da carteira, das garantias e do caso concreto. Para definir a estratégia adequada, consulte sempre o advogado responsável.

Existe falência de pessoa física? O que é insolvência civil?

Existe. A insolvência civil é a execução coletiva do devedor não empresário: quando as dívidas superam os bens, qualquer credor com título executivo pode pedir que o devedor seja declarado insolvente, e todo o patrimônio penhorável dele, atual e futuro, é arrecadado para pagar os credores em concurso universal. É, na prática, a falência de quem não pode falir pela Lei 11.101/2005.

A definição legal cabe em uma linha e está no art. 748 do CPC de 1973:

Dá-se a insolvência toda vez que as dívidas excederem à importância dos bens do devedor.
— Art. 748 do CPC/73 (Lei 5.869/1973)

Sim, o código é o de 1973, e ele continua valendo nesse ponto. O CPC/2015 revogou o código anterior, mas abriu uma exceção expressa no art. 1.052: até a edição de lei específica, as execuções contra devedor insolvente, em curso ou que venham a ser propostas, permanecem reguladas pelo Livro II, Título IV, da Lei 5.869/1973. A lei específica nunca veio. Resultado: quase dez anos depois do novo código, a insolvência civil é o único pedaço do CPC/73 ainda vivo, e segue sendo aplicada normalmente pelos tribunais, inclusive pelo STJ em 2026.

O alcance do instituto é mais largo do que parece: ele serve contra o devedor pessoa física (o sócio avalista, o fiador, o devedor alcançado pela desconsideração da personalidade jurídica) e também contra a pessoa jurídica civil não empresária, como associações e fundações, que igualmente não se sujeitam à falência.

O que o STJ decidiu no REsp 2.258.692?

Duas coisas, ambas favoráveis a quem cobra. Primeira: o credor com execução individual frustrada não precisa desistir dela para pedir a insolvência civil do devedor. A execução fica apenas suspensa enquanto a ação de insolvência discute se o patrimônio do devedor é de fato insuficiente. Segunda: até o credor com crédito privilegiado pode pedir o concurso, mas, ao optar por ele, pratica renúncia tácita ao privilégio e concorre em igualdade com os demais credores.

O caso concreto era de um credor trabalhista com execução infrutífera: o tribunal de origem exigia que ele encerrasse a execução individual antes de pedir a insolvência do devedor. A 3ª Turma do STJ, em decisão unânime de 4 de agosto de 2026 relatada pela ministra Nancy Andrighi, afastou a exigência. O procedimento da insolvência tem duas fases: primeiro se decide se o devedor é ou não insolvente; só depois se arrecadam e se vendem os bens para pagar os credores. Não faria sentido obrigar o credor a abrir mão da execução que já tem antes mesmo de saber se o concurso será instaurado.

A segunda tese resolve uma dúvida antiga de leitura da lei. O art. 753, I, do CPC/73 legitima ao pedido qualquer credor quirografário, e havia quem enxergasse aí uma proibição ao credor com preferência. O STJ flexibilizou: o credor preferencial pode requerer o concurso, só que o pedido implica abrir mão do privilégio, porque o concurso universal exige isonomia entre os credores. Para o credor B2B típico, titular de duplicatas, contratos e cheques sem qualquer preferência legal, a questão nem se coloca: ele é quirografário e sempre teve legitimidade expressa.

Quais são os efeitos da declaração de insolvência civil?

Três efeitos automáticos, listados no art. 751 do CPC/73, mais um quarto no artigo seguinte, e juntos eles mudam completamente a posição do devedor:

  • Vencimento antecipado de todas as dívidas (art. 751, I): parcelas futuras, contratos em curso, tudo vence de imediato, na linha do vencimento antecipado contratual que o credor já conhece, só que por força de lei e contra todo o passivo.
  • Arrecadação de todos os bens penhoráveis, atuais e futuros (art. 751, II): entram na massa os bens que o devedor tem hoje e também os que adquirir no curso do processo. A herança que chegar, o imóvel que ele receber, o crédito que ele ganhar em outro processo: tudo responde.
  • Concurso universal de credores (art. 751, III): todos os credores são convocados por edital a declarar seus créditos (art. 761) e concorrem no mesmo juízo; as execuções individuais em curso são remetidas ao juízo da insolvência (art. 762, § 1º).
  • Perda da administração dos bens (art. 752): declarada a insolvência, o devedor perde o direito de administrar e de dispor do próprio patrimônio até a liquidação total da massa, que passa às mãos de um administrador nomeado pelo juiz dentre os maiores credores.

O quarto efeito é o que mais interessa a quem assiste ao devedor dilapidar patrimônio: com a declaração de insolvência, a blindagem em movimento morre. O devedor não pode mais vender, doar nem onerar nada, e o que tentar transferir depois é ineficaz perante a massa. A comparação com a execução individual mostra o tamanho da diferença:

PontoExecução individualInsolvência civil (concurso)
Quem conduzO credor, no próprio ritmo e no próprio interesseAdministrador da massa nomeado dentre os maiores credores (art. 761), sob direção do juízo universal
Alcance dos bensBens penhoráveis que o credor conseguir localizarTodos os bens penhoráveis, atuais e adquiridos no curso do processo (art. 751, II)
Outros credoresCada um corre por fora; quem penhora primeiro tem prioridadeTodos concorrem no mesmo juízo; execuções individuais são remetidas ao concurso (art. 762, § 1º)
Vencimento das dívidasCada dívida vence no prazo contratadoVencimento antecipado de todo o passivo (art. 751, I)
Gestão do patrimônioO devedor segue administrando os bens e pode dilapidá-losO devedor perde a administração e a disposição dos bens (art. 752)
PrescriçãoCorre normalmente e exige diligência contínua do credorInterrompida com o concurso; só volta a correr do trânsito em julgado da sentença de encerramento (art. 777)
Extinção das dívidasNão existe prazo de perdão: o saldo é exigível enquanto não prescreverAs obrigações se extinguem 5 anos após o encerramento do processo (art. 778)
Pressão sobre o devedorA da penhora e das medidas atípicasMáxima: para elidir o pedido, o devedor precisa depositar o valor do crédito (art. 757)

Quem pode pedir a insolvência civil e o que é preciso provar?

Podem requerer a insolvência, pelo art. 753 do CPC/73, qualquer credor quirografário, o próprio devedor e o inventariante do espólio do devedor. Com o REsp 2.258.692, soma-se o credor preferencial que aceite renunciar tacitamente ao privilégio. O requisito documental está no art. 754: o credor instrui o pedido com título executivo, judicial ou extrajudicial. Sem título, não há pedido de insolvência: a duplicata aceita ou protestada com comprovante de entrega, o contrato assinado, o cheque, a sentença. Quem só tem faturas soltas precisa antes constituir o título, por confissão de dívida ou ação monitória.

E como se prova que as dívidas excedem os bens, se o credor não tem acesso à contabilidade da vida do devedor? Pela presunção do art. 750: presume-se a insolvência quando o devedor não possuir outros bens livres e desembaraçados para nomear à penhora (inciso I), ou quando houver arresto de bens com fundamento no art. 813, I a III, do CPC/73 (inciso II). O inciso I é a porta de entrada prática: a execução frustrada, com SISBAJUD negativo, RENAJUD vazio e busca patrimonial documentando que não há bens livres, é exatamente o retrato que a lei presume ser o de um insolvente. O material que o credor diligente já produziu na execução vira a prova central da ação de insolvência.

Citado, o devedor tem 10 dias para opor embargos (art. 755), nos quais pode alegar as defesas típicas do executado ou demonstrar que o seu ativo é superior ao passivo (art. 756). E há uma terceira saída, a mais reveladora de todas: o art. 757 permite ao devedor elidir o pedido depositando o valor do crédito reclamado. É o mesmo mecanismo do depósito elisivo da falência, e produz o mesmo efeito prático: diante do risco de perder a administração de todo o patrimônio, o devedor que tem como pagar, paga. O paralelo com o pedido de falência como instrumento de cobrança é direto: o pedido de insolvência é também uma ferramenta de pressão legítima, que muda o cálculo do devedor recalcitrante.

Insolvência civil, falência e superendividamento: qual a diferença?

São três regimes distintos que se confundem o tempo todo, inclusive em petições. A falência é para o empresário; a insolvência civil, para o devedor não empresário; e o superendividamento é um processo de repactuação voluntária que só o consumidor pode iniciar, com preservação do mínimo existencial. A tabela separa os três:

RegimeA quem se aplicaQuem pode iniciarBase legal
FalênciaEmpresário individual e sociedade empresáriaCredor ou o próprio devedorLei 11.101/2005
Insolvência civilDevedor não empresário: pessoa física e pessoa jurídica civil (associações, fundações)Credor com título executivo, o devedor ou o inventariante do espólio (art. 753)CPC/73 (Livro II, Título IV), por força do art. 1.052 do CPC/2015
SuperendividamentoConsumidor pessoa física de boa-fé, com dívidas de consumoSomente o próprio consumidorLei 14.181/2021 (CDC, arts. 104-A a 104-C)

A diferença que decide estratégias: o superendividamento é escudo do devedor, a insolvência civil é espada do credor. No processo da Lei 14.181/2021 o consumidor propõe um plano de pagamento em audiência de conciliação, e o credor comparece como convidado; na insolvência civil é o credor quem toma a iniciativa, e o devedor é quem se defende. Se o seu devedor pessoa física invocar o superendividamento, o regime é outro, com regras próprias. O que este artigo trata é do movimento inverso: o credor usando o concurso universal contra o devedor que deve mais do que tem.

Vale a pena pedir a insolvência civil do devedor?

Nem sempre, e é aqui que a decisão deixa de ser jurídica e vira decisão de negócio. A insolvência civil tem custos reais para o credor. O primeiro é o concurso: quem pede a insolvência convoca, por edital, todos os demais credores do devedor, inclusive os preferenciais que se habilitem, e passa a dividir com eles um patrimônio que já se sabe insuficiente. O segundo é o tempo: o processo é lento, com duas fases, administrador, habilitações e liquidação. O terceiro é o prazo do art. 778, uma espécie de fresh start à brasileira: consideram-se extintas todas as obrigações do devedor decorridos 5 anos contados do encerramento do processo de insolvência. Na execução individual comum esse perdão simplesmente não existe.

Os contrapesos protegem o credor mais do que se costuma supor. Liquidada a massa sem pagamento integral, o devedor continua obrigado pelo saldo (art. 774 do CPC/73), e os bens penhoráveis que adquirir depois respondem pelo pagamento (art. 775). A prescrição, interrompida com a instauração do concurso, só volta a correr do trânsito em julgado da sentença que encerra o processo (art. 777), o que praticamente elimina o risco de perder o crédito pelo relógio, tema que na execução individual exige gestão ativa e permanente do calendário prescricional. E os 5 anos do art. 778 contam do encerramento do processo, não da declaração de insolvência: entre uma coisa e outra podem passar muitos anos de arrecadação, inclusive de bens futuros. Ainda assim, o prazo existe, e o credor precisa colocá-lo na conta.

A regra de bolso que aplicamos na prática tem três cenários:

  • Fique na execução individual quando o crédito tem garantia boa (real ou fidejussória com garantidor solvente) ou o devedor tem renda e bens localizáveis: nesse caso o credor não tem por que dividir com ninguém, e a execução turbinada com SISBAJUD reiterado, busca patrimonial e medidas executivas atípicas tende a render mais e mais rápido.
  • Considere o concurso quando o devedor está blindando patrimônio em movimento e vários credores disputam os mesmos bens: a perda da administração (art. 752) mata a dilapidação de uma vez, a arrecadação alcança bens futuros, e chegar cedo ao concurso é melhor que penhorar por último na fila das execuções individuais.
  • Use o pedido como instrumento de pressão quando os sinais indicam que o devedor tem liquidez escondida: o depósito elisivo do art. 757 força a escolha entre pagar o crédito ou responder a um processo que congela toda a sua vida patrimonial. Um cliente nosso do setor de distribuição de perfumes e cosméticos viveu exatamente isso: a simples notificação de que o pedido de insolvência do avalista seria protocolado, instruída com o retrato da execução frustrada, destravou uma negociação que meses de penhoras infrutíferas não haviam destravado.

Checklist prático: o credor diante do devedor pessoa física insolvente

Antes de escolher entre execução individual, concurso ou pressão, organize o dossiê:

  1. Confira o título executivo: a insolvência exige título judicial ou extrajudicial (art. 754). Duplicata com aceite ou protesto e comprovante de entrega, contrato assinado, cédula, cheque ou sentença. Sem título, constitua um antes (confissão de dívida ou monitória).
  2. Documente a frustração da execução: SISBAJUD negativo (de preferência reiterado ou na modalidade teimosinha), RENAJUD vazio, CNIB, e busca patrimonial formal demonstrando a ausência de bens livres e desembaraçados. É a presunção do art. 750, I.
  3. Mapeie o passivo do devedor: protestos, negativações, execuções e penhoras de outros credores. O mapa diz duas coisas: se a insolvência é real (dívidas maiores que bens) e quantos concorrentes você teria no concurso.
  4. Avalie garantias e coobrigados antes de qualquer pedido: se há aval, fiança ou garantia real executável, ou um segundo coobrigado solvente, o caminho individual quase sempre vence. Lembre que o credor preferencial que pede o concurso renuncia tacitamente ao privilégio (REsp 2.258.692).
  5. Decida com a regra de bolso: garantia boa ou bens localizáveis, execução individual; dilapidação em curso e concurso de credores de fato já instalado, insolvência; liquidez escondida, pressão com o pedido e o depósito elisivo do art. 757.
  6. Se optar pelo pedido, não desista da execução: desde o REsp 2.258.692, ela fica apenas suspensa enquanto a insolvência se discute. Se o pedido for rejeitado, a execução retoma o curso de onde parou.
  7. Se outro credor pedir a insolvência primeiro, habilite o seu crédito no prazo do edital (20 dias, art. 761): a sua execução individual será remetida ao juízo universal de qualquer forma (art. 762, § 1º), e quem perde o prazo só disputa a sua cota depois, pela via mais trabalhosa da ação direta do credor retardatário (art. 784).

Como a TVR conduz a cobrança quando o devedor pessoa física deve mais do que tem

Com diagnóstico antes de tese. O erro clássico nesse cenário é binário: ou o credor arquiva o crédito porque pessoa física não quebra, ou parte para a medida mais agressiva sem medir o que vai dividir com os outros credores. Nossa atuação começa pelo retrato completo: título, garantias, coobrigados, patrimônio localizável, passivo concorrente e comportamento do devedor. Desse retrato sai a decisão estratégica entre a execução individual turbinada, o pedido de insolvência civil e o uso do pedido como alavanca de negociação, com o depósito elisivo do art. 757 no horizonte. E, como a insolvência de hoje nasce do crédito mal garantido de ontem, a frente preventiva trabalha a carteira antes da inadimplência: garantias bem constituídas, coobrigados solventes e títulos executivos desde a origem.

Todo esse acompanhamento roda no painel próprio do escritório, plataforma desenvolvida pela TVR onde o cliente enxerga em tempo real a carteira, os acordos e os indicadores de cada devedor, incluindo o estágio de cada execução e cada medida patrimonial em curso. Se você tem execuções frustradas contra sócios, avalistas ou fiadores, ou quer saber se algum devedor da carteira é caso de insolvência civil, agende uma reunião de diagnóstico gratuito: avaliamos juntos o cenário e definimos o caminho com melhor chance real de recuperação.

Perguntas frequentes

O que é insolvência civil?

É a execução coletiva do devedor não empresário, uma espécie de falência de quem não pode falir pela Lei 11.101/2005. Pelo art. 748 do CPC/73, dá-se a insolvência toda vez que as dívidas excederem a importância dos bens do devedor. Declarada por sentença, ela produz o vencimento antecipado de todas as dívidas, a arrecadação de todos os bens penhoráveis, atuais e futuros, e o concurso universal de credores (art. 751), além da perda, pelo devedor, da administração do próprio patrimônio (art. 752). O regime segue regulado pelo CPC de 1973 por força do art. 1.052 do CPC/2015, que manteve essas regras em vigor até a edição de lei específica, nunca editada.

Existe falência de pessoa física no Brasil?

Existe, com outro nome. A falência da Lei 11.101/2005 é exclusiva do empresário e da sociedade empresária, mas o devedor pessoa física que deve mais do que tem pode ser submetido à insolvência civil, regulada pelo Livro II, Título IV, do CPC de 1973, ainda vigente nesse ponto. Os efeitos são equivalentes aos da falência: vencimento antecipado das dívidas, arrecadação do patrimônio penhorável por um administrador da massa, concurso universal de credores e perda da administração dos bens. O mesmo regime alcança pessoas jurídicas civis não empresárias, como associações e fundações.

Quem pode pedir a insolvência civil do devedor?

Pelo art. 753 do CPC/73: qualquer credor quirografário, o próprio devedor e o inventariante do espólio do devedor. O pedido do credor deve ser instruído com título executivo judicial ou extrajudicial (art. 754). Em agosto de 2026, a 3ª Turma do STJ decidiu no REsp 2.258.692, por unanimidade, que também o credor com crédito privilegiado (no caso, trabalhista) tem legitimidade, mas o pedido representa renúncia tácita ao privilégio, porque o concurso universal exige isonomia entre os credores. Para o credor comum, sem preferência legal, a legitimidade é expressa e nunca foi controversa.

Quais são os efeitos da declaração de insolvência civil?

O art. 751 do CPC/73 lista três: o vencimento antecipado de todas as dívidas do devedor; a arrecadação de todos os seus bens penhoráveis, tanto os atuais quanto os adquiridos no curso do processo; e a execução por concurso universal dos credores. O art. 752 acrescenta o quarto e mais duro: declarada a insolvência, o devedor perde o direito de administrar e de dispor dos próprios bens até a liquidação total da massa, que fica a cargo de um administrador nomeado pelo juiz dentre os maiores credores (art. 761). As execuções individuais em curso são remetidas ao juízo da insolvência (art. 762, § 1º).

Preciso desistir da execução para pedir a insolvência do devedor?

Não. A 3ª Turma do STJ decidiu no REsp 2.258.692, julgado em 4 de agosto de 2026 sob relatoria da ministra Nancy Andrighi, que o credor com execução individual frustrada pode pedir a declaração de insolvência civil do devedor sem desistir da execução: ela fica apenas suspensa enquanto a ação de insolvência discute se o patrimônio do devedor é de fato insuficiente. A lógica é a estrutura em duas fases do procedimento: primeiro se decide se o devedor é insolvente; só depois começa a arrecadação e a venda dos bens. Se o pedido de insolvência for rejeitado, a execução individual retoma o curso normalmente.

As dívidas do insolvente desaparecem depois de 5 anos?

Sim, mas o prazo conta do encerramento do processo, não da declaração de insolvência. Pelo art. 778 do CPC/73, consideram-se extintas todas as obrigações do devedor decorridos 5 anos contados da data do encerramento do processo de insolvência, e o devedor precisa requerer essa extinção, podendo os credores se opor (arts. 779 a 782). Antes disso, o insolvente continua obrigado pelo saldo (art. 774) e os bens que adquirir respondem pelo pagamento (art. 775). A prescrição fica interrompida durante todo o concurso e só volta a correr do trânsito em julgado da sentença de encerramento (art. 777).

Insolvência civil e superendividamento são a mesma coisa?

Não. O superendividamento da Lei 14.181/2021 é um processo de repactuação voluntária de dívidas de consumo, iniciado exclusivamente pelo próprio consumidor de boa-fé, com plano de pagamento e preservação do mínimo existencial: é um escudo do devedor. A insolvência civil do CPC/73 é uma execução coletiva forçada, que pode ser requerida pelo credor munido de título executivo, e resulta em arrecadação de todos os bens penhoráveis, concurso universal e perda da administração do patrimônio pelo devedor: é uma espada do credor. Um terceiro regime, a falência da Lei 11.101/2005, aplica-se apenas ao empresário e à sociedade empresária.

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JURÍDICO

A empresa devedora é um consórcio de empresas: as consorciadas respondem pela dívida? Cada uma pela sua parte ou qualquer uma pelo total? As quatro portas do credor (arts. 278 e 279 da Lei 6.404/1976 e art. 265 do Código Civil)

Uma locadora de equipamentos pesados faturou R$ 1,4 milhão para o Consórcio Obra Norte, formado por três construtoras para uma obra de saneamento: a Alfa Engenharia S.A., líder, com 60%, a Beta Construções Ltda., com 30%, e a Gama Terraplenagem Ltda., com 10%. Os pedidos e a confissão de dívida foram assinados pelo gerente do consórcio, em nome do consórcio, e as notas fiscais saíram contra o CNPJ do consórcio. A obra atrasou, o consórcio parou de pagar, a Alfa pediu recuperação judicial e a Gama, a menor das três, é a única com caixa. Posso cobrar o total da Gama? Depende do contrato: o consórcio não tem personalidade jurídica e cada consorciada responde por suas obrigações nas condições do contrato de consórcio, sem presunção de solidariedade (art. 278, § 1º, da Lei 6.404/1976), régua que a Quarta Turma do STJ aplicou em dois julgamentos concluídos em junho de 2026. Existem quatro portas, e cada uma pede uma prova diferente: o contrato de consórcio arquivado na Junta Comercial, que define a parte de cada consorciada e, sem cláusula de solidariedade, limita a cobrança à fração de cada uma; a cláusula de solidariedade, no contrato de consórcio ou no próprio contrato com o credor, que permite cobrar o total de qualquer consorciada; a solidariedade por lei, que é do consumidor e, nas licitações, da Administração Pública, e com a qual o fornecedor privado não deve contar; e a recuperação judicial ou a falência de uma consorciada, que não arrasta as outras nem apaga a solidariedade contratada. Este guia mostra o que muda quando a devedora é um consórcio, por que o CNPJ do consórcio não o transforma em empresa com patrimônio próprio, quando o credor cobra só a fração e quando cobra o total, por que a empresa líder representa o consórcio mas não garante a dívida das outras, o que acontece com a alteração do contrato de consórcio não arquivada na Junta, por que o fornecedor não pode contar com a solidariedade do Código de Defesa do Consumidor nem deve depender da solidariedade da Lei de Licitações, o que muda quando uma consorciada pede recuperação judicial ou tem a falência decretada, contra quem propor a ação e por que a sentença obtida só contra o consórcio não alcança as consorciadas, como descobrir quem responde e por quanto, a tabela situação por situação, a conta de quando compensa perseguir cada consorciada, o passo a passo e os nove erros que transformam a cobrança em prejuízo.

10 SET 2026 · 15 MIN