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Cobrança de dívidas e LGPD: como cobrar e localizar o devedor sem violar a lei

26 JUN 2026 · 11 min de leitura · Por Tauany Vasconcelos (OAB/SP 459.621)
TRATAMENTO DE DADOS NA COBRANÇALGPDDEVEDORAVALISTA / FIADORPARENTE · VIZINHOLGPD · COBRAR SÓ QUEM DEVE, SÓ PARA COBRAR

Existe um mito perigoso rondando os times de cobrança: o de que a LGPD teria dificultado, ou até proibido, cobrar quem deve. Não é verdade. A Lei Geral de Proteção de Dados não impede a cobrança, ela disciplina como os dados do devedor podem ser usados nesse processo. A boa notícia é que a própria lei traz bases legais que autorizam o credor a tratar os dados para cobrar, sem precisar pedir autorização ao devedor: a proteção ao crédito e o legítimo interesse, entre outras. A má notícia, para quem cobra de qualquer jeito, é que práticas comuns no passado viraram risco concreto: ligar para o vizinho, o parente ou a referência comercial do devedor, usar os dados para outra finalidade ou repassar a carteira a uma assessoria sem contrato adequado podem gerar multa da ANPD, que chega a 2% do faturamento, e indenização por dano moral. Este guia explica como a LGPD se aplica à cobrança, quais bases legais autorizam o uso dos dados, quem pode ser contatado, como localizar o devedor sem extrapolar a finalidade e o que muda quando a empresa contrata um escritório para recuperar o crédito.

Desde que a Lei Geral de Proteção de Dados entrou em vigor, criou-se um mito que atrapalha muita empresa: o de que a LGPD teria dificultado a cobrança ou, na versão mais extrema, proibido cobrar sem autorização do devedor. Isso é falso e custa caro, porque faz times recuarem de cobranças legítimas por medo de uma regra que, na verdade, não os impede de agir. A LGPD não proíbe a cobrança. Ela disciplina como os dados pessoais do devedor podem ser tratados durante o processo.

A distinção é importante. A lei reconhece que recuperar um crédito é um interesse legítimo de quem vendeu a prazo e não recebeu, e oferece bases legais específicas para tratar os dados com essa finalidade, sem depender de consentimento. O que a LGPD cobra é método: usar só os dados necessários, apenas para cobrar, contatar apenas quem deve, proteger as informações e formalizar a relação com quem ajuda na recuperação. Este guia mostra como cobrar e localizar o devedor dentro da lei, e por que a cobrança bem estruturada é também uma forma de blindagem jurídica.

Nota

Este conteúdo é informativo e reflete a Lei 13.709/2018 (LGPD) e a orientação geral da ANPD aplicável à cobrança. A autoridade vem detalhando deveres de transparência e qualidade dos dados por meio de regulamentos, e a interpretação evolui com a prática. Para adequar a sua operação de cobrança e os contratos com terceiros, consulte sempre o advogado responsável.

A LGPD se aplica à cobrança de dívidas?

Sim. Toda cobrança envolve tratar dados pessoais do devedor (nome, CPF, endereço, telefone, valor e histórico da dívida), e a LGPD se aplica a qualquer operação de tratamento desses dados, do cadastro ao contato, da localização ao compartilhamento com terceiros. Mas aplicar-se não é o mesmo que proibir. A lei estabelece um regime de uso responsável, e a cobrança é justamente uma das atividades para as quais ela prevê bases legais próprias.

Em outras palavras, a pergunta certa não é se a empresa pode cobrar usando os dados do devedor, e sim como ela deve fazer isso. A LGPD não cria um direito do inadimplente de não ser cobrado. Ela cria deveres para quem cobra, e o principal deles é tratar os dados com finalidade definida, base legal válida e segurança adequada.

A cobrança precisa do consentimento do devedor?

Não. Esse é o ponto que mais gera confusão. O consentimento é apenas uma das dez bases legais do art. 7 da LGPD, e não é a base usada na cobrança. Exigir que o devedor autorize a própria cobrança seria absurdo, e a lei não exige isso. O tratamento de dados para cobrar se apoia em outras hipóteses, que dispensam o consentimento.

  • Proteção ao crédito (art. 7, X): a LGPD prevê expressamente o tratamento de dados para finalidade de proteção do crédito, o que ampara a cobrança e a negativação.
  • Legítimo interesse (art. 7, IX): recuperar um valor devido é interesse legítimo do credor, desde que o tratamento seja proporcional e limitado ao necessário.
  • Execução de contrato (art. 7, V): quando a dívida nasce de um contrato, tratar os dados para cobrá-la é parte da execução desse contrato.
  • Exercício regular de direitos (art. 7, VI): o uso dos dados em processo judicial, administrativo ou arbitral, como uma execução, é expressamente autorizado.

Na prática, isso significa que a empresa pode cobrar, negativar e executar sem pedir permissão ao devedor para usar os seus dados. O que ela não pode é desviar a finalidade, usando esses dados para marketing, para vender mailing ou para qualquer objetivo que não seja a própria recuperação do crédito.

A LGPD vale para a cobrança entre empresas (B2B)?

A LGPD protege dados de pessoa natural. Os dados de uma pessoa jurídica em si (razão social, CNPJ, faturamento) não são dados pessoais e ficam fora do alcance direto da lei. Por isso há quem conclua, rápido demais, que a cobrança B2B não tem relação com a LGPD. É um erro perigoso.

Mesmo na cobrança entre empresas, há sempre pessoas naturais envolvidas cujos dados são protegidos: os sócios e administradores, os avalistas e fiadores pessoas físicas, os contatos do setor financeiro do cliente. Quando o credor aciona o sócio que avalizou a dívida, consulta o CPF de um administrador ou guarda o telefone pessoal de um comprador, está tratando dados pessoais sob a LGPD. A operação é B2B, mas o dado é de gente, e a lei se aplica.

Quem pode ser contatado na cobrança?

Esta é a regra que mais separa a cobrança profissional da cobrança que gera passivo. O contato de cobrança deve se dirigir a quem tem responsabilidade pela dívida: o próprio devedor e os responsáveis solidários por contrato, como o avalista e o fiador. Eles respondem pela obrigação, então o contato tem finalidade legítima.

O que se tornou claramente arriscado é contatar terceiros que não devem nada. Ligar para o cônjuge, os pais, os vizinhos, o empregador ou as referências comerciais do devedor para falar da dívida extrapola a finalidade do tratamento, expõe a inadimplência a quem não tem relação com ela e pode configurar tanto violação da LGPD quanto cobrança vexatória. Essa prática, comum no passado, hoje é uma das principais fontes de indenização e de autuação.

ContatoPode?Por quê
O próprio devedorSimÉ o titular da obrigação
Avalista e fiadorSimResponsáveis solidários por contrato
Cônjuge sem ser garantidorNãoNão responde pela dívida
Parentes, vizinhos, referênciasNãoTerceiros estranhos à dívida
Empregador do devedorNãoExpõe a inadimplência e desvia a finalidade

Como localizar o devedor respeitando a LGPD?

Localizar o devedor e o seu patrimônio é parte legítima da recuperação de crédito, e a LGPD não impede a busca patrimonial. O que ela exige é que os dados venham de fontes lícitas e sejam usados apenas para a finalidade de cobrança e execução. Consultar bases de crédito, cartórios, registros públicos e, no curso de um processo, usar as ferramentas judiciais de localização de bens são tratamentos amparados pelo exercício regular de direitos.

O cuidado está em não transformar a busca em devassa. Reunir dados sem relação com a cobrança, vasculhar a vida pessoal de terceiros ligados ao devedor ou armazenar informações além do necessário extrapola a finalidade. A busca patrimonial bem feita é focada: ela procura o que serve para receber o crédito, com origem rastreável e uso restrito ao processo de recuperação. Feita assim, fortalece a execução em vez de criar um flanco de defesa para o devedor.

O que muda quando a empresa contrata uma assessoria ou escritório?

Quando o credor entrega a carteira a um terceiro para cobrar, surge uma relação que a LGPD organiza com dois papéis: o controlador, que decide sobre o tratamento (em regra a empresa credora, dona do crédito), e o operador, que trata os dados em nome dele (a assessoria ou o escritório de cobrança). Essa relação precisa ser formalizada por contrato, com previsão de como os dados serão usados, protegidos e descartados, conforme o art. 39 da LGPD.

O ponto sensível é a responsabilidade. Se o operador descumpre a lei, o controlador pode responder solidariamente pelos danos (art. 42). Ou seja, a empresa que terceiriza a cobrança não terceiriza o risco: se a assessoria contratada contata terceiros indevidamente, vaza dados ou usa a carteira para outro fim, o credor pode ser chamado a responder junto. Por isso escolher quem cobra deixou de ser só uma decisão de eficiência e virou também uma decisão de conformidade.

Quais os riscos de cobrar fora da LGPD?

Os riscos são concretos e somam-se. No campo administrativo, a ANPD pode aplicar sanções que vão da advertência à multa de até 2% do faturamento da empresa, limitada a R$ 50 milhões por infração, além de bloqueio e eliminação dos dados e publicização da infração (art. 52). No campo civil, o devedor exposto indevidamente pode pleitear indenização por dano moral. E, quando a relação é de consumo, a cobrança vexatória ainda esbarra no Código de Defesa do Consumidor, que veda expor o consumidor a ridículo ou submetê-lo a constrangimento e ameaça.

Cobrança mal feita vira passivo

Cada contato indevido com um terceiro, cada dado usado fora da finalidade e cada repasse de carteira sem contrato adequado é uma porta para multa e indenização. O paradoxo é que a empresa busca receber e acaba criando uma nova dívida, agora dela. Por isso a cobrança em conformidade não é burocracia: é o que protege o resultado da recuperação.

O que pode e o que não pode na cobrança sob a LGPD?

PodeNão pode
Cobrar sem pedir consentimento, com base na proteção ao créditoUsar consentimento como desculpa para tratar dados além do necessário
Contatar o devedor, o avalista e o fiadorContatar parentes, vizinhos, empregador e referências
Negativar e protestar a dívida regularNegativar dívida inexistente, paga ou prescrita
Localizar bens por fontes lícitas para executarVasculhar a vida pessoal de terceiros ligados ao devedor
Compartilhar dados com operador por contratoRepassar a carteira sem contrato e sem controle de uso
Usar os dados só para a cobrançaUsar os dados para marketing ou venda de mailing

Como deixar a cobrança em conformidade com a LGPD?

Adequar a cobrança à LGPD não trava a operação, ela a profissionaliza. Alguns passos resolvem a maior parte do risco.

  1. Definir a base legal e a finalidade do tratamento (proteção ao crédito e legítimo interesse para cobrar), deixando claro que os dados servem só para a recuperação.
  2. Restringir o contato ao devedor e aos responsáveis solidários, eliminando ligações a terceiros estranhos à dívida.
  3. Coletar e guardar apenas os dados necessários, com origem lícita, e descartar o que não é mais preciso.
  4. Formalizar com cada assessoria ou escritório um contrato de operador, com regras de uso, segurança e descarte, e verificar como o terceiro protege os dados.
  5. Manter a base de dívidas precisa e atualizada, evitando cobrar valor já pago, inexistente ou prescrito, que é a origem mais comum de indenização.

Como a TVR conduz a cobrança em conformidade com a LGPD

No TVR Advocacia, tratamos a conformidade como parte da própria estratégia de recuperação, e não como um obstáculo a ela. Conduzimos a cobrança com base nas hipóteses legais que autorizam o tratamento dos dados do devedor, direcionamos o contato a quem de fato responde pela dívida, e fazemos a busca patrimonial com foco e origem rastreável, de modo que a recuperação se sustente sem criar um flanco de defesa para o devedor nem um passivo para o cliente. A relação com a empresa credora é formalizada na figura de operador, com regras claras de uso, segurança e descarte dos dados.

O cliente acompanha tudo pela nossa plataforma própria, em tempo real, com a carteira, os acordos, as liquidações e os indicadores de êxito, e os honorários de êxito incidem apenas sobre o que efetivamente retorna ao caixa, de modo que o nosso resultado depende do resultado do cliente. A sua empresa quer recuperar crédito com firmeza e sem risco de virar ré por cobrar do jeito errado? Agende uma reunião de diagnóstico gratuito: avaliamos juntos o cenário da sua carteira e indicamos a melhor estratégia de recuperação, em conformidade com a LGPD.

Perguntas frequentes

A cobrança de dívidas precisa do consentimento do devedor pela LGPD?

Não. O consentimento é apenas uma das bases legais da LGPD e não é a usada na cobrança. O tratamento de dados para cobrar se apoia em outras hipóteses do art. 7 da Lei 13.709/2018, como a proteção ao crédito (inciso X), o legítimo interesse (inciso IX), a execução de contrato (inciso V) e o exercício regular de direitos em processo (inciso VI). A empresa pode cobrar, negativar e executar sem pedir autorização ao devedor; o que não pode é usar os dados para outra finalidade, como marketing.

A cobrança pode ligar para parente, vizinho ou empregador do devedor?

Não. O contato de cobrança deve se dirigir a quem responde pela dívida: o próprio devedor e os responsáveis solidários por contrato, como avalista e fiador. Ligar para cônjuge que não é garantidor, parentes, vizinhos, empregador ou referências comerciais para tratar da dívida extrapola a finalidade do tratamento, expõe a inadimplência a terceiros e pode configurar violação da LGPD e cobrança vexatória, gerando multa e indenização.

A LGPD se aplica à cobrança entre empresas (B2B)?

Os dados da pessoa jurídica em si (razão social, CNPJ) não são dados pessoais e ficam fora do alcance direto da LGPD, mas a cobrança B2B quase sempre trata dados de pessoas naturais: sócios, administradores, avalistas e fiadores pessoas físicas e contatos do financeiro. Ao acionar o sócio que avalizou a dívida ou consultar o CPF de um administrador, o credor trata dados pessoais sob a LGPD. Ou seja, a operação é B2B, mas a lei se aplica aos dados de pessoas naturais envolvidas.

É possível localizar o devedor e seus bens sem violar a LGPD?

Sim. A busca patrimonial é parte legítima da recuperação de crédito. A LGPD exige apenas que os dados venham de fontes lícitas e sejam usados só para a finalidade de cobrança e execução. Consultar bases de crédito, cartórios e registros públicos e usar as ferramentas judiciais de localização de bens no curso do processo são tratamentos amparados pelo exercício regular de direitos. O limite é não transformar a busca em devassa da vida pessoal de terceiros nem guardar dados além do necessário.

Quem responde se a assessoria de cobrança contratada violar a LGPD?

A LGPD organiza essa relação com dois papéis: o controlador (em regra a empresa credora, que decide sobre o tratamento) e o operador (a assessoria ou escritório que trata os dados em nome dela). A relação deve ser formalizada por contrato (art. 39). Se o operador descumpre a lei, o controlador pode responder solidariamente pelos danos (art. 42). Por isso terceirizar a cobrança não terceiriza o risco: escolher quem cobra e formalizar o contrato passou a ser também uma decisão de conformidade.

Quais as multas por cobrar fora da LGPD?

A ANPD pode aplicar sanções que vão da advertência à multa de até 2% do faturamento da empresa, limitada a R$ 50 milhões por infração, além de bloqueio e eliminação dos dados e publicização da infração (art. 52 da LGPD). Soma-se a isso a indenização por dano moral ao devedor exposto indevidamente e, nas relações de consumo, a vedação à cobrança vexatória prevista no Código de Defesa do Consumidor. Cobrar fora da lei pode transformar a tentativa de receber em um novo passivo.

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